Roupa Psíquica da Ansiedade
Fugir para onde? Se dentro de mim está
essa dor.
Corpo, traje do espírito, findo, impossível
repor.
Sabendo disso, lamento remendando o
desamor.
Tecido liso, estampado, multicor.
Ter sido vívido, jamais meramente nascido.
Pressa no íntimo, me visto do jeito que
for.
Coração frenético, pensamento célere,
tremor.
Incompreendido, sigo, ó pobre sofredor!
Reflito enfim: Existo ou vivo? Sou ou não
sou?
Roupa psíquica da ansiedade causa-me
torpor.
Mas convivo ou finjo? Respiro, prova que
ativo estou.
Vestimenta rasgada pelo esforço, complexo
exposto.
No rosto, marcas da falta de aconchego e
amor.
Me queixo encarando o espelho. O que
vejo?
Mar de ideias agitadas, choro, olhos
vermelhos.
Brisa serena, águas mansas, eis-me velejador.
No varal, indumentária ordenada, inexistência
do caos.
Dia ensolarado, luz, sorriso, e pareço normal.
Persisto em negar! Por quê? Enojo da
crueza do real.
Fico na zona de conforto e no fundo do
poço; fatal!
Não dormir, nem sonhar. Idas e vindas do
quarto até o sofá.
Passos à noite trêmulos, ora gélidos,
ora cálidos. Vigiar!
Odor de mofo impregnado de conflito,
desgosto e insanidade.
Triste amanhecer! Vazio no ser, privado
de preâmbulo, sem mais nada.
Para quê viver? Resta saber! Morrer? Ora,
saída da vaidade!
Cosesse pelo avesso, e só, vestuário
disforme e de baixo preço.
Infância tolhida e cheia de tropeços. Rebeldia
juvenil, coisa da idade!
Afiro, corto, cinjo e passo. Envelheço! Conto
anos e descompassos.
Costuro retalhos de teorias, careço de
magia, sobram às queixas.
Pendurados no cabide lembranças dos
planos com incredulidades.
Para reverter a existência, displicência,
e tudo que leva a incertezas.
Suturando o fim, tive que aceitar, sim, a
roupa psíquica da ansiedade.
Estátua do por vir inacabada no jazigo de
tantas faltas.
Lápide inscrita: “Aqui jaz despido de
brio e mortalha”.
Persistiu em seguir? De modo algum! O
medo assolapava.
Por fim, última morada, e assim enterrou
à roupa psíquica da ansiedade.

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"Não me tires o que não me podes dar!... Deixa-me ao meu sol."
- Diógenes de Sinope