segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Roupa Psíquica da Ansiedade




Fugir para onde? Se dentro de mim está essa dor.
Corpo, traje do espírito, findo, impossível repor.
Sabendo disso, lamento remendando o desamor.
Tecido liso, estampado, multicor.
 
Ter sido vívido, jamais meramente nascido.
Pressa no íntimo, me visto do jeito que for.
Coração frenético, pensamento célere, tremor.
Incompreendido, sigo, ó pobre sofredor!
 
Reflito enfim: Existo ou vivo? Sou ou não sou?
Roupa psíquica da ansiedade causa-me torpor.
Mas convivo ou finjo? Respiro, prova que ativo estou.
Vestimenta rasgada pelo esforço, complexo exposto.
 
No rosto, marcas da falta de aconchego e amor.
Me queixo encarando o espelho. O que vejo?
Mar de ideias agitadas, choro, olhos vermelhos.
Brisa serena, águas mansas, eis-me velejador.
 
No varal, indumentária ordenada, inexistência do caos.
Dia ensolarado, luz, sorriso, e pareço normal.  
Persisto em negar! Por quê? Enojo da crueza do real.
Fico na zona de conforto e no fundo do poço; fatal!
 
Não dormir, nem sonhar. Idas e vindas do quarto até o sofá.
Passos à noite trêmulos, ora gélidos, ora cálidos. Vigiar!
Odor de mofo impregnado de conflito, desgosto e insanidade.
Triste amanhecer! Vazio no ser, privado de preâmbulo, sem mais nada.
 
Para quê viver? Resta saber! Morrer? Ora, saída da vaidade!
Cosesse pelo avesso, e só, vestuário disforme e de baixo preço.
Infância tolhida e cheia de tropeços. Rebeldia juvenil, coisa da idade!
Afiro, corto, cinjo e passo. Envelheço! Conto anos e descompassos.
 
Costuro retalhos de teorias, careço de magia, sobram às queixas.
Pendurados no cabide lembranças dos planos com incredulidades.
Para reverter a existência, displicência, e tudo que leva a incertezas.
Suturando o fim, tive que aceitar, sim, a roupa psíquica da ansiedade.
 
Estátua do por vir inacabada no jazigo de tantas faltas.
Lápide inscrita: “Aqui jaz despido de brio e mortalha”.
Persistiu em seguir? De modo algum! O medo assolapava.
Por fim, última morada, e assim enterrou à roupa psíquica da ansiedade.

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"Não me tires o que não me podes dar!... Deixa-me ao meu sol."
- Diógenes de Sinope